segunda-feira, janeiro 15, 2018

O PSD de Rio


Rui Rio ganhou a liderança do PSD, como se começou cedo a perceber, à medida que os números da votação iam saindo cá para fora. Facilmente se adivinhava que ganhando praticamente todos os distritos do norte e centro do país (faltou Coimbra e Lisboa, insuficiente para dar a volta), onde está a maioria da população e o grosso dos votantes do PSD, que a vitória já não escaparia a Rio.

Como disse no outro post, o antigo presidente da CM Porto está longe de ser um génio político, uma figura redentora ou um estadista de alta craveira. É rigoroso, firme, possivelmente bem intencionado, mas não será, salvo grande surpresa, o salvador por que os militantes do PSD tanto esperam. Dificilmente ganhará a António Costa nas próximas eleições, a não ser que algo de surpreendente se passe (e a verdade é que em 1984 ninguém imaginava Cavaco no poder pouco tempo depois, tal como ninguém imaginaria em 2004 ver brevemente Sócrates à frente do governo). Pode acontecer que o PS ganhe com maioria relativa e precise do PSD para viabilizar um governo, permitindo assim a perda da influência da extrema-esquerda, um dos objectivos de Rio. De qualquer forma, estranho a tentativa de colagem de Rio à esquerda: é verdade que em matéria de costumes é mais libertário, mas quando esteve à frente da câmara do Porto, distinguiu-se pelo rigor nas contas e pelo baixo despesismo e investimento público, por uma postura autoritária e por desdenhar da cultura, o que o tornou num dos alvos preferidos da esquerda (e se pensarmos que o BE portuense é em grande medida constituído por actores e sociólogos...).

Mas entre Rio e Santana a escolha era óbvia. Parece incrível como é que em 2018 ainda haja gente a seguir o "menino-guerreiro", mas a verdade é que ainda conseguiu uns incríveis 46% dos votos. Mesmo depois do seu curto e desastroso governo, da sua errância, de quase nunca cumprir um projecto até ao fim e de os deixar sempre um legado endividado, e de já ter perdido uma eleição com António Costa em 2009 (que devia ser uma mancha no currículo mais que suficiente para nem se apresentar), ainda há muito quem acredite nele. Será por amizade, por ingenuidade, por ódio a Rio? Todas essas razões são válidas, mas 46% é muito.

Seja como for, o PSD pode gozar agora de um período de maior sanidade, mas não terá certamente a vida fácil nem gozará de um estado de graça.
Quanto a Passos Coelho, resolveu, e bem, sair do parlamento. Deve fazer a correspondente travessia política no deserto. Veremos o que o futuro lhe reserva. 

Já agora, a razão para se prever que Rio seria o novo líder do PSD é que até já havia um hino que lhe era dedicado. Caramba, os autores destas causas tinham certamente dons premonitórios: é que já me lembro de ouvir isto desde as "ondas laranjas" de Cavaco Silva.


sábado, janeiro 13, 2018

As vitórias efémeras de Santana


Não sou militante do PSD, mas quero sempre que para a liderança dos partidos vençam os melhores e, sinceramente, já tarda uma oposição eficaz ao actual (esquema de) Governo, e o CDS não basta, por mais que Assunção Cristas se esforce - com algum êxito. Por vezes Catarina e Jerónimo tentam preencher a vaga, mas é raro aventurarem-se em grandes indignações.

Vivi bastantes anos sob os mandatos de Rui Rio e pude ver os seus sucessos e os seus fracassos. É um homem rigoroso, minucioso com as contas, pouco influenciado por grupos de pressão e ameaças (lembram-se da manif dos Super Dragões?) e teimoso, para o bem e para o mal. Como pontos negativos é autoritário, tem uma visão limitada e demasiado genérica sobre diversos assuntos, como a justiça, e uma péssima relação com a comunicação social. Não parece ser a escolha ideal para líder da oposição e para primeiro-ministro, embora pudesse fazer um papel competente como ministro das finanças ou da administração interna. Ainda assim, prefiro alguém com as suas limitações mas com rigor e organização do que um viciado nas disputas políticas como Santana Lopes, que por onde passou deixou as finanças em pantanas, e que nem quando já tinha atingido finalmente uma aura de credibilidade "senatorial" resiste a vir disputar pela enésima vez a liderança do partido - que já teve, com o êxito que se viu - com uma leviandade que já se pensava ser coisa do passado.

E neste combate pela presidência do PSD, nestas tricas, acusações várias e respectivos desmentidos, tenho ouvido por mais do que uma vez que Santana é um "vencedor". Os únicos triunfos que lhe conheço são os das vitórias autárquicas na Figueira e em Lisboa. É sobretudo esta que os seus apoiantes recordam, com razão, porque vencer uma coligação entre o PS e o PCP com um presidente no cargo cujo mandato não tinha desagradado à população, e apenas com o PSD (e simbolicamente o PPM), era uma tarefa hercúlea. Mas as vitórias de Santana acabaram aí. E vale a pena lembrar que já depois de ter oferecido a maioria absoluta a Sócrates seria de novo candidato em 2009 à câmara de Lisboa, desta vez à frente de uma coligação que juntava PSD e CDS, e perdeu com o PS de António Costa apoiado pelo grupo de Helena Roseta.

É este o pormenor que merece ser apontado: caso ganhe a presidência do PSD, Santana terá pela frente não João Soares mas António Costa, o que significa que a conquista de 2001 perdeu a validade. Já agora, é bom lembrar que Rui Rio cometeu uma proeza semelhante, ao conquistar o Porto nessas mesmas eleições (que ditaram a demissão de Guterres) a um PS de Fernando Gomes considerado absolutamente imbatível. Rio manteve-se na câmara por três mandatos, crescendo sempre nas sucessivas eleições que disputou, sempre com uma coligação PSD/CDS. Fica a nota para quem se apoia demasiado em actos eleitorais que já lá vão. Até porque os votos não são dos candidatos, são dos eleitores, e eles podem mudar o seu sentido sempre que tiverem oportunidade.

sexta-feira, janeiro 05, 2018

Nove anos de Delito de Opinião (e uma antologia comemorativa)


O primeiro post do ano 2018, já no seu quinto dia, é endereçado ao Delito de Opinião, no qual tenho também a honra de participar: é que hoje é precisamente o seu 9º aniversário. O Delito começou a sua caminhada a 5 de Janeiro de 2009 e não mais parou, arrebatando vários e talentosos escribas (e também outros que não o são, como este vosso servo) e alcançando o topo das preferências dos leitores da blogoesfera. 

E que melhor forma de comemorar o aniversário do que anunciar o livro da colectânea de textos do Delito? Como só vai até determinada época ainda não aparecem textos deste que vos escreve, por isso a qualidade é garantida. Para que seja editado há uns certos requisitos a preencher, pelo que os passo a transcrever:

"Quase a entrar no décimo ano de publicação ininterrupta, o DELITO DE OPINIÃO passa enfim de blogue a livro. Está pronta a nossa primeira antologia de textos escolhidos pelos autores que entenderam participar nesta colectânea, com estilos e temas muito diferentes - afinal aquilo que fez e faz a identidade muito própria deste blogue, que resiste de boa saúde ao "fim da blogosfera" que alguns se apressaram a decretar urbi et orbi num anúncio que nós por cá desmentimos todos os dias.
Como a nossa série dos  blogonautas convidados bem demonstra: noventa já passaram por cá desde Março e vários outros estão a chegar.
Como as estatísticas deste blogue confirmam: ultrapassámos já um milhão de visualizações desde o início do ano ainda em curso.

O sistema que adoptámos para este livro, com 260 páginas e chancela editorial da Bookbuilders, é o da subscrição. Ou crowdfunding, como agora se diz em "português técnico". Isto implica a existência de um número prévio de leitores inscritos, fazendo reserva de exemplares, para que a obra entre no mercado.
Esperamos um número mínimo de 160 subscritores, que passam a figurar como "apoiantes do DELITO" nesta iniciativa que a partir de agora deixa de ser só nossa e se torna também vossa.
Contamos portanto com a vossa adesão para muito em breve passarem a ler-nos também em livro. O complemento natural ao blogue.

Prometo ir dando mais novidades sobre esta iniciativa. Entretanto podem desde já aderir, enquanto leitores "delituosos", na loja virtual da Bookbuilders. Para garantir o acesso a esta nossa primeira antologia. E abrir o caminho a que apareçam outras. Esperando que gostem tanto de nos ler em livro como já demonstraram gostar de nos ler em blogue."


domingo, dezembro 31, 2017

Fim de ano


Como é costume, A Ágora deseja bom ano a todos os que por aqui ainda vão aparecendo, esperando que em 2018 haja mais posts, entrecortados com os do Delito de Opinião.

Bom ano de 2018 d. C.

sexta-feira, dezembro 22, 2017

O dia seguinte ao 21-D


Se há coisa que não se pode dizer depois das eleições na Catalunha é que alguma é previsível e simples. É a velha questão dos copos: se por um lado os partidos independentistas repetem a maioria absoluta (se juntarmos tudo, claro), por outro é a primeira vez que um partido não regionalista ganha as eleições naquela região. Se o PP de Rajoy leva uma banhada histórica, a CUP anticapitalista e independentista radical leva outra. E se Puigdemont ontem dizia coisas como "a república catalã (qual?) venceu a monarquia espanhola", hoje já vem pedir a Rajoy que se sentem a discutir e diz que não precisa da CUP para nada.

Espera-se que não precise realmente, e que sem os radicais que preferem os jihadistas aos turistas a gritarem-lhe ao ouvido, consiga uma solução que traga benefícios para a Catalunha sem contudo se tornar num novo país. Porque é isso que dizem os votos: a maioria dos eleitores não quer um país independente, mas há um número suficiente para que se procedam a mudanças. E Rajoy, que é um sobrevivente, já esgotou o número de se fazer de morto.

E entretanto, novos protagonistas ganham mais espaço. Contem com eles.



PS: Sábado há Real Madrid - Barcelona. Bom auscultador dos humores no país vizinho.

quinta-feira, dezembro 21, 2017

Os Habsburgos na RTP2


Apesar das séries de TV - ou agora até da net, ou de um híbrido entre as duas - estarem em grande, suplantando mesmo o cinema, não sou grande seguidor. A oferta é imensa, tem inúmeras categorias, e a obrigatoriedade de seguir os episódios, sobretudo quando há várias épocas, implica um esforço de fidelidade que tem os seus custos. 

Quando não são extensas acompanho uma ou outra. E há algumas que não sendo especialmente mediáticas têm o seu interesse. É o caso de uma produção que passou na RTP2 até há cerca de duas semanas, com o título português Maximiliano: Poder e Amor (no original Maximilian: Das Spiel von Macht und Liebe), que narra o encontro do herdeiro do trono do Sacro Império que dá nome à série com a duquesa da Borgonha. Centrando-se na particular relação entre os dois, com as habituais sub-tramas de romances pelo meio, a série mostra-nos um período charneira da história da Europa, entre o fim da Idade Média e o início do Renascimento. Constantinopla caíra poucos anos antes, na mesma altura em que findava a Guerra dos Cem Anos, e Portugal tinha iniciado a expansão africana. A história começa com a notícia da morte de Carlos, o Temerário, na batalha de Nancy, e das atribulações que a sua filha Maria teve de passar, em particular com a burguesia flamenga (a duquesa da Borgonha tinha a sua corte na então próspera Gand), pouco afecta à casa ducal e mais próxima da França de Luís XI, inimigo jurado do Temerário, com cujo filho (quase uma criança) pretendia casar Maria, anexando o velho ducado e seus territórios, que então se estendiam da Borgonha propriamente dita até à actual Holanda, aos territórios franceses. Dando a volta a estas maquinações, Maria casar-se-ia com Maximiliano.

Não querendo fazer demasiadas revelações caso a série volte a passar na TV um dia destes, compreende-se melhor assim o fim de uma potência, a Borgonha, que a ter sobrevivido como estado (e como reino, como pretendia o Temerário) mudaria bastante a geopolítica da Europa como a conhecemos, e a ascensão de outra. O Sacro Império passava por inúmeros problemas, numa altura em que os exércitos eram sobretudo constituídos por mercenários, para cuja manutenção era preciso dinheiro, que não abundava nos cofres dos Habsburgos. Para mais, estavam rodeados de poderosos inimigos - a França a oeste e a leste a Hungria do poderoso Matias Corvino e seus estados vassalos, como a Valáquia do célebre Vlad, o Empalador. Ironicamente, a coroa da Hungria seria mais tarde ostentada pelos Habsburgos. Mas todos esses problemas são retratados na série, onde começa a formar-se a dinastia que dominaria a Europa no futuro próximo. Se então a Borgonha passava por uma crise dinástica, Castela passava por outra, que acabou com o triunfo de Isabel, a Católica, sobre a pretendente apoiada por Portugal, Joana, a Beltraneja. A resolução das duas acabaria por ficar umbilicalmente ligada: o filho de Maximiliano e de Maria, Filipe, o Belo, casar-se-ia com a filha dos Reis Católicos (de Castela e de Aragão), Joana, a Louca, e o filho de ambos, que a História recorda como Carlos V, herdaria os títulos de Imperador do Sacro-Império, Duque de Borgonha (embora a região com esse nome tivesse sido anexada pela França) e Rei de Castela e Aragão, com todos os territórios inerentes e ainda os do Novo Mundo. O seu filho Filipe seria também, a partir de 1580, Rei de Portugal, como se sabe.

Claro que grande parte destes acontecimento não vêm narrados na série, que decorre num período de cinco anos. Nela cabem o romance, a intriga, a traição, a desobediência e a guerra, num ambiente algo pesado e penumbroso. Tem também uma excelente fotografia e alguns aspectos curiosos, como o facto de todos falarem na respectiva língua e em mais nenhuma - o austríaco falava com a borgonhesa em alemão e esta respondia-lhe em francês, ao passo que em Gand se falava flamengo. Nem uma palavra em inglês. Só é pena que não tenha sido referido um pormenor: o de Maximiliano e Maria, que antes do casamento nunca se tinham visto (e casam mesmo por procuração) serem já primos, uma vez que a mãe dele, já morta na altura dos acontecimentos, e a avó dela eram sobrinha e tia, ambas portuguesas, ambas da casa de Aviz (filha de D. Duarte e de D. João I, respectivamente). Tirando a omissão lusa e outras de menor importância, e só lamentando não haver mais cenas de batalha, a série cumpre perfeitamente a função didáctica. Que haja mais.

terça-feira, dezembro 19, 2017

Qatar nos Emirados, entre Madrid e Porto Alegre


Sábado à tarde entretive-me a ver a final do Mundial de Clubes, que, como habitualmente, contou com os representantes da Europa e da América do Sul. Vitória natural do Real Madrid sobre o Grémio de Porto Alegre, com um ainda mais natural golo de livre de CR7, a conquistar o ceptro mundial (e ainda lhe anularam inexplicavelmente outro tento). A equipa gaúcha revelou-se uma desilusão, a anos-luz do excelente Grémio de meados dos anos noventa, com Jardel, Paulo Nunes, Adilson e restante esquadra comandada por Scolari. Só o central Geromel, que até passou os primeiros anos da carreira em Chaves e Guimarães, se destacou da mediania-menos.

Bem menos natural do que o triunfo da multinacional desportiva sediada em Madrid é que numa final em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, apareçam nas placas comerciais à volta do relvado anúncios da Qatar Airways, rival da Emirates, a companhia aérea daquele território (e autêntico embaixador e reserva económica). Ainda por cima a Qatar é patrocinada por um estado que está de relações cortadas com os Emirados e até sofre por parte destes e dos seus aliados um bloqueio económico. É tão bizarro como ver anúncios a uma companha cubana na final da Super Bowl. Seria uma provocação ao Real Madrid (a Qatar Airways patrocina o Barcelona)?

Dizem-me que afinal a transportadora qatari é uma das patrocinadoras da FIFA. Talvez assim se compreenda: a grande organização do futebol mundial é de tal forma poderosa que consegue romper bloqueios e tensões internacionais e impor publicidade em países que tanto por razões políticas como económicas certamente a não desejariam. E assim fica um exemplo eloquente de como uma organização mundial não-governamental tem mais influência e poder do que muitos estados, mesmo os mais endinheirados.



domingo, dezembro 17, 2017

O Benfica no Inverno


Não tenho falado muito de bola aqui, e não admira. Com o Benfica a fazer uma época tão modesta e apagada, as minhas atenções futebolísticas voltam-se para os relvados estrangeiros. Mas vale a pena recordar o que têm sido os disparates acumulados nos últimos meses para evitar repetições nos próximos anos.
O Benfica do ano passado já não era uma coisa fabulosa, com jogadores que não renderam o que se esperava, como Rafa e Carrillo, mas servia para vencer o campeonato, como aconteceu, e justamente. Este ano, venderam-se Lindelof, Semedo, Ederson e Mitroglou sem que nenhum dos seus lugares fosse devidamente preenchido. Percebo que o Benfica precise de fazer dinheiro para diminuir o volume de dívida e que tenha de aproveitar as chorudas ofertas que vêm da Premier League e de outros campeonatos abonados. Mas que tenha um pouco de tino no momento de contratar novos jogadores para os lugares em falta. O exemplo da tentativa de substituir Nelson Semedo é ilustrativo: cinco jogadores foram já utilizados no lugar, além dos que foram contratados para a mesma posição e nem sequer entraram em campo, e ao fim e ao cabo, é o "bombeiro" André Almeida que preenche o lugar, nem sempre com bons resultados.

O problema é que os resultados foram ainda piores que os esperados. A (falta de) performance na Europa é aterradora, dando-nos a pior época de sempre, com humilhantes zero pontos, apenas ao alcance das mais medíocres equipas que jogaram por sorte na competição, fazendo do Benfica o pior cabeça de série da história da competição. Para além da vergonha, do dinheiro que se perde e da queda expectável nas tabelas das melhores equipas da Europa, era particularmente importante fazer uma carreira decente este ano nas competições europeias depois da campanha lançada pelos departamentos de propaganda de Porto, sobretudo, e do Sporting (logo a seguir aos responsáveis destas entidades terem reatado relações meio às escondidas). Seria a melhor resposta a uma campanha em tudo poco clara, mas infelizmente correu tudo ao contrário.

Agora fala-se da entrada de novos jogadores e da saída de outros, como os fiascos "Gabigol" e Douglas (este nem chega a sê-lo, de tal forma estávamos avisados da sua fraquíssima aptidão a defender, o que o torna num novo Okunowo, que jogou no Benfica nas mesmas condições, ou num novo Dudic), o que mostra bem a péssima preparação da época, que nem em cima do joelho deve ter sido feita. O campeonato corre menos mal, mas o Benfica está também fora da Taça de Portugal, embora com bastante infelicidade à mistura, diga-se, e não está muito bem na Taça da Liga. Mesmo com mais folga, dificilmente alcançaremos o tal "penta". E diga-se em abono da verdade, não o merecemos muito. Melhor seria começar já a preparar a próxima época, aproveitando alguns dos bons valores do Seixal que jogam na equipa B, além de Rúben Dias.

Mas já que falei em jogadores de saída, não posso deixar de referir um que merece uma palavra: Júlio César. O veterano guarda-redes brasileiro é dos jogadores com mais títulos de sempre no futebol mundial  - só lhe faltou mesmo a Taça do Mundo em selecções - e nos três anos que jogou na Luz sempre defendeu a camisola do Benfica com honra e profissionalismo, até as condições físicas o permitirem. É daqueles jogadores que vejo sair do clube com pena. E nas suas despedidas, o guarda-redes também parece já saudoso. Um abraço, Júlio César.

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quinta-feira, novembro 23, 2017

A espectacular superioridade da candidatura de Lisboa sobre a do Porto


É uma pena esperada que a candidatura do Porto à Agência Europeia do Medicamento não tivesse ganho. Mas não é por isso que se pode dizer desde já que a de Lisboa, descartada em Junho pelo Governo, tivesse sido vencedora. Sim, houve muito quem defendesse a tese "se Lisboa fosse candidata a receber a EMA teria muito mais hipóteses de ganhar do que o Porto".


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Sim, o Porto perdeu, ficou em sétimo e em boa verdade só por muita fé é que se pensaria que podia ganhar. A candidatura tinha alguns aspectos vagos e dificilmente podia ombrear com outros concorrentes. Mas pensar que Lisboa tinha mais hipóteses é outra quimera. Até agora, vi escrito vezes sem conta que Lisboa era uma das preferidas, que tinha muito mais possibilidades de ganhar, etc. Pois bem, não vi um único argumento que me demonstrasse essas tais hipóteses.

O Luís refere por exemplo que a Agência só podia ir para uma capital. Ora a cidade que chegou ao fim com mais pontuação foi Milão, só preterida em sorteio posterior a favor de Amsterdão. O Porto ficou a par de Atenas e à frente de capitais como Viena, Helsínquia, Sófia, Bucareste ou Varsóvia. Se ser capital nacional era mesmo um requisito (e isso não aparecia em parte nenhum, senão não concorreriam cidades que não o são), ou houve distração por parte das entidades responsáveis ou então era apenas uma condição simbólica. O que só mostra que a candidatura do Porto era melhor do que o que se pensava.

O Embaixador Seixas da Costa, também aludido pelo Luís, acha que "Lisboa era a única cidade portuguesa com condições potenciais para albergar" a agência. Mais uma vez não nos são apresentados critérios, excepto o da "visibilidade execional que a cidade está a ter por toda a Europa". Se a razão é essa, recordo que a também o Porto tem neste momento uma visibilidade internacional que provavelmente nunca antes tinha conhecido. Não por acaso, foi eleito, por três vezes em seis anos, "melhor destino europeu". Vale o que vale, mas a votação que lhe permitiu o tri-galardão teve sobretudo votos estrangeiros a favor. Não sendo um argumento de enorme peso, demonstra que também a visibilidade portuense está em alta. E não esquecer, evidentemente, a repercussão que a eleição de Rui Moreira teve, com honras de reportagem e entrevista por parte de jornais como o Le Monde e o New York Times.


O Diogo recorda-nos que os funcionários da EMA preferiam ir para Lisboa. Podia ser um argumento com algum peso. Simplesmente, diz-nos a notícia, tratou-se de um inquérito interno revelado apenas pelo presidente da Apifarma, e sem que os resultados fossem "publicados ou comunicados aos estados-membros". Ou seja, temos apenas a "revelação" do sr presidente da Apifarma, sem qualquer confirmação. Aliás, ouvimos muitos falsos alarmes ao longo deste processo. Ou não se lembram do favoritismo ser atribuído a Bratislava?

De resto, não ouvi quaisquer outros argumento que atestassem as enormes hipóteses de a candidatura Lisboa ser tão melhor que a do Porto. Pelo contrário, ouvi os habituais desabafos de que "era a capital", a maior cidade", "essas coisas devem ficar onde têm mais representatividade (Sic)", etc. Excepto talvez um: o de que Lisboa teria mais linhas aéreas. É um facto. Mas para além do aeroporto de Pedras Rubras apresentar melhores condições, é bom lembrar que a supressão de várias e importantes linhas aéreas do Porto partiu daquela empresa que não sabemos se é pública ou privada chamada TAP, com explicações frouxas e atabalhoadas.

Por outro lado, há um argumento que se não é exclusivo, joga pelo menos com bastante força contra a candidatura de Lisboa: o facto de já lá haver duas agências europeias. Só uma cidade tem mais do que duas: Bruxelas. Tirando a "capital da UE", e na possibilidade remotíssima de ganhar, Lisboa tornar-se-ia a única cidade com três agências, o que seria uma caricatura chapada do centralismo à portuguesa.

Assim sendo, explica-se melhor a atitude do governo, que depois de escolher Lisboa, mudou subitamente para a candidatura do Porto: sabia-se que nem uma nem outra teriam quaisquer hipóteses. E tentou-se assim dar uma aura de descentralização de fachada. Mais penoso ainda: viram-se deputados, como Catarina Martins, a retorquir que o facto de outras cidades, como o Porto, Braga e Coimbra não serem também candidatas era um ultraje, depois de eles mesmo terem votado em Lisboa.

Mas talvez estas discussões e estas candidaturas tenham trazido algo de bom: tal como aconteceu com o Festival da Eurovisão (que ficou, e muito bem, no Parques das Nações), discutiu-se para que cidade portuguesa determinado organismo/evento internacional viria, embora só depois de se emendar a mão à simples escolha de Lisboa, apenas porque sim, sem mais. É uma atitude saudável que doravante terá de fazer parte das escolhas dos decisores políticos. O resultado final pode perfeitamente ser Lisboa, mas que haja uma avaliação e um debate prévio sobre a matéria em questão. Senão arriscamo-nos a ficar sempre tão centralizados como a Hungria ou a Grécia. Ou talvez nem isso: é que a Grécia conta com três agência europeias e nenhuma delas sequer fica em Atenas. Afinal é bem verdade que Portugal não é a Grécia.

Já agora, se me permitem, ficou-se a saber que a desconcentração de serviços é uma tarefa hercúlea. Não sei se a mudança da administração e de parte dos trabalhadores da Apifarma de Lisboa para o Porto se justifica e a que títulos. Também não acho, nem nunca achei, que desconcentrar fosse tirar de Lisboa e colocar no Porto, como se a grande falha não fosse litoral/interior. Mas ao ver os queixumes e as reclamações com o "triste destino" dos trabalhadores, que, horror, podem até ter que ir trabalhar para o Porto, não posso deixar de pensar nos milhares e milhares que ao longo de gerações tiveram que abandonar as suas raízes e as suas famílias e migrar para a capital e para os seus subúrbios crescentemente lotados, sem que nunca ninguém tivesse elevado a voz para os defender nem para contestar a sua migração quase forçada. Talvez agora se comece a pensar nisso.

segunda-feira, novembro 20, 2017

Os últimos vilões


Este fim de semana morreram Charles Manson e Toto Riina, dois assassinos sinistros (o primeiro um perfeito psicopata, o segundo o mais impiedoso dos mafiosos), sem quaisquer barreiras morais. Ao mesmo tempo, assistimos à morte política de Robert Mugabe, um dos ditadores mais lunáticos das correntes décadas. Os últimos dias foram arrasadores para os grandes vilões que ainda sobravam do século XX.