terça-feira, abril 25, 2017

O regime vigente de França continua a depender dos partidos.


É verdade que Vª República francesa sofreu o maior abanão desde a sua criação, em 1958. Um candidato gaullista ficar de fora da segunda volta é absolutamente inédito, tirando os anos Giscard D´Estaing, entre 1974 e 1981. Um candidato socialista obter menos e 7% seria impensável até há poucos anos, e note-se que o candidato dos socialistas ganhou as últimas presidenciais e ainda está no Eliseu. Para os socialistas, fica a pequena consolação de ver um seu ex-militante e ministro ganhar a 1ª volta e muito provavelmente a segunda. Ainda assim, Benôit Hamon colhe um resultado humilhante e fica muito abaixo, mais de dez pontos, de Jean-Luc Mélenchon, representante da esquerda radical, e ligeiramente à frente do conservador Dupont-Aignant, outsider da corrida. Como se o PS francês tivesse recuado quase 50 anos, já que só nos anos sessenta é que vemos pela última vez o partido comunista (principal frça apoiante de Mélenchon) a obter mais votos que os socialistas.

Para os gaullistas (prefiro chamar-lhes assim porque o agora Les Republicains passa o tempo a mudar de nome), é um resultado desolador, para quem há poucos meses era dado como vencedor antecipado, mas esperado, dada a queda de Fillon, a partir de Fevereiro, depois de sabidos os esquemas em que estava envolvido. O candidato ficou em terceiro lugar, relativamente próximo de LePen mas apenas umas décimas à frente de Mélenchon.

Para a candidata da Frente Nacional é um resultado histórico, mas um pouco aquém do que se chegou a prever (perto de 30% e a vitória na primeira volta). Fica longe de poder disputar a 2ª volta até ao último momento. Ainda assim, fortaleceu-se em zonas onde tem obtido votações muito altas, como o sudeste (Provença e Côte d´Azur) e o noroeste industrial. Em compensação , em Paris obteve uma votação fraquíssima: apenas 5%; metade, por exemplo, da votação de Hamon.
E para Emmanuel Macron é a quase chegada ao topo de um político que, ao contrário da maior parte dos representantes da classe, não tem uma longa carreira atrás de si. Com menos de 40 anos, será provavelmente os mais jovens líderes executivos no activo, no que apenas se pode comparar a Matteo Renzi, que já nem sequer está em funções. E olhando para os antecessores, reparamos que apenas Giscard chegou ao Eliseu com menos de 50 anos (tinha 48 em 1974). Sarkozy e Hollande, na casa dos 50 quando ganharam os seus mandatos, também eram considerados relativamente novos.

Se Macron for, como tudo indica, eleito no dia 7 de Maio, será um presidente em partido. Mesmo que LePen ganhasse, a sua Frente Nacional teria escassíssima representação nas câmaras legislativas. E em Junho há legislativas, que continuam a decorrer sob o método de círculos uninominais. É pouco provável que o movimento En Marche de Macron concorra, com um tal método que exige tantos candidatos. E a Frente Nacional, mesmo que obtenha muitos votos, tem a crónica dificuldade de eleger deputados. Assim, veremos as máquinas partidárias em movimento e os tais partidos "tradicionais em crise" ocupar a maioria dos lugares parlamentares, embora as presidenciais possam influenciar as escolhas (dando mais votos ao movimento de Mélenchon, por exemplo). E tudo isso influenciará o novo executivo e obrigará Macron a procurar apoios em várias bancadas da Assembleia Nacional. As presidenciais são apenas o começo: o futuro da Vª República francesa dependerá, e muito, das legislativas que se seguem.

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domingo, abril 23, 2017

Tempo pascal


Não desejei uma Santa Páscoa aos caros leitores. Mas como ainda estamos em período pascal, mais precisamente na pascoela, acho que ainda vou a tempo.

Deixo-vos com esta imagem de renascimento, que não sendo de ressurreição, bem pode ilustrar o começo (ou recomeço) de algo novo.

sexta-feira, abril 07, 2017

O pós-clássico e o que sobra do campeonato


O clássico que, como sempre nestas ocasiões, ia ser " jogo do ano" e ia "determinar o próximo campeão nacional" saldou-se, como tantas outras vezes acontece, por um empate, apesar de intenso e interessante. E um empate a saber a pouco, depois da quantidade de oportunidades perdidas às mãos de Casillas, que tal como no ano passado, voltou a fazer uma grande exibição na Luz. À partida, e ao ver as ausências de Fejsa e o sempre adiado regresso de Grimaldo, temi o pior, talvez influenciado pelos cânticos de vitória antecipada entoados pelos portistas, para quem a vitória nem se punha. No fim, a desilusão com o mísero ponto de avanço, contrastando com a felicidade dos adeptos e atletas do Porto, em claro esquecimento da confiança inicial. Talvez Nuno Espírito Santo tenha jogado de forma a pensar que a perda de pontos do Benfica em Alvalade são favas contadas, como aliás reafirmou, mas é um cálculo perigoso. Recorde-se que depois do Sporting-Benfica do ano passado, nenhuma destas equipas perdeu mais qualquer ponto. Mas pior do que a desilusão é ver um autêntico mercenário como aquele lateral uruguaio que, não contente de comemorar o golo a festejar simiescamente contra o clube onde jogou durante 8 anos, ainda se fartou de entrar por várias vezes nas canelas dos adversários, alguns dos quais seus antigos colegas, o suficiente para uns 4 amarelos. Um espectáculo deprimente, mas depois não se venham queixar os adeptos portistas de que falta mística no seu plantel.

Entretanto, houve o jogo da Taça. Pareceu-me que havia demasiada confiança na passagem, a avaliar pela convocatória e pela equipa principal, como demasiadas mexidas e muitos jogadores sem ritmo. Com um Estoril sem nada a perder, a coisa ia-se complicando com um perigoso empate a 3. Salvou-se a passagem à final do Jamor, (a 36!), para reencontrar o Vitória de Guimarães, o golo de Zivkovic, a exibição de Carrillo e o regresso de Grimaldo.

Tirando a final da Taça, o Benfica em apenas os jogos do campeonato, e nenhum deles se afigura fácil. Além disso, tem de contar com a aliança entre Porto e Sporting, que já revelou os seus traços esta semana, com os sportinguistas a intervir num jogo onde não foram tidos nem achados para pedir um castigo para Jonas e Samaris, por supostas "agressões". O pedido em si já é patético, sobretudo vindo de um clube que viu Slimani ser castigado na época seguinte por um autêntica agressão num jogo com o Benfica. E é ainda mais aviltante por se tratarem de dois casos em que não houve qualquer agressão. Mas a "mentira mil vezes contada" já está a fazer o seu caminho, e temos agora uma data de lunáticos a afirmar que sim senhor, houve agressões dos dois. A haver alguma expulsão seria a do mercenário uruguaio, mas curiosamente isso passou despercebido. Já se sabe, o Benfica controla a comunicação social.

É uma velha sina: o Benfica tem de jogar o dobro para ser campeão, uma vez que tem como principais adversários dois clubes que acima de tudo, não o querem ver ganhar, mais do que ao outro que sobra. Mas se conquistar o inédito tetra, para não falar da Taça, será ainda mais saboroso. Não menos do que a conquista do tri do ano passado, contra um Sporting que apostou todas as fichas e em que o Benfica era dado como derrotado à partida. Veremos.

terça-feira, abril 04, 2017

No delito de Opinião



A partir desta semana estarei também no Delito de Opinião. O primeiro texto é precisamente o anterior que também publiquei aqui, com o título ligeiramente alterado. Mas descansem os que cá vêm porque isso não implica o fecho de A Ágora.

domingo, abril 02, 2017

O drama da direita tradicional francesa


Ou François Fillon é perfeitamente inábil, ou a fortuna abandonou-o definitivamente depois das surpreendentes primárias em que se içou a candidato da direita republicana francesa. Há dias realizou uma manifestação no Trocadéro, com a Torre Eiffell em fundo, e que reuniu algumas dezenas de milhares de apoiantes, para afirmar que prosseguia como candidato e atirando-se à justiça e aos correlegionários partidários que o haviam abandonado. Uma prova de força lhe deu algum oxigénio e que obrigou o partido a reafirmar o seu apoio, ao mesmo tempo que Alain Juppé se mostrava indisponível para ser um "plano b". Até algumas formações que o haviam abandonado voltaram de repente atrás. Mas novo caso bizarro, o dos fatos comprados a preço de ouro a alfaiates parisienses de renome, alguns deles pagos em numerário por "amigos" (o que é que isto nos lembra), veio manchar de novo o suposto currículo impecável de Fillon. E depois disso, vieram à superfície novos rumores que não abonam nada a favor da auto-propalada integridade do candidato gaullista.
 
 
No debate a cinco que se seguiu, Fillon tentou dar um ar da sua graça, mas passou despercebido e a sua prestação só ficou acima da de Benôit Hamon, o candidato oficial e nada consensual do PS francês. Único ponto a favor: era o que tinha a gravata mais elegante.
 
 
Recorde-se que Fillon era, até há semanas, o provável vencedor tanto da primeira como da segunda volta das presidenciais francesas. A rejeição a Marine LePen, as lutas internas do PS francês e a pouca relevância a que a esquerda radical está votada, numa eleição a que se apresentam quase 50 candidatos (incluindo trostquistas, bonapartistas e simples apêndices zangados das forças maiores), fazia prever que Fillon fosse o próximo locatário do Eliseu. A partir do momento em que os cargos da família Fillon vieram à ribalta pública, através do impiedoso Canard Enchainé, as intenções de voto caíram e emergiu Emanuel Macron, o candidato do centro sem suporte partidário.

O drama de Fillon parece ser, como já muitos jornais franceses salientaram, uma repetição do que aconteceu a Edouard Balladur nas presidenciais de 1995. Em fins de 1994, Jacques Delors, a cessar o seu mandato na Comissão Europeia e largamente favorito entre os eleitores para suceder a François Mitterrand, declarou-se fora da corrida. O PS francês teve de se contentar com Lionel Jospin, abrindo caminho ao favoritismo do centro-direita. Jacques Chirac, então maire de Paris, ex Primeiro-Ministro e antigo candidato derrotado em anteriores presidenciais (o que em França dá estatuto de persistência), era a escolha óbvia da aliança gaullista-liberal entre o RPR e a UDF. Mas o então Primeiro-Ministro, Edouard Balladur, com largos apoios à direita e no governo, resolveu avançar e dividiu todo aquele espectro político. A alguns meses das eleições, era o favorito nas sondagens, tanto na primeira como na segunda volta. Mas aos poucos, o seu ar demasiado senhorial, alguns casos obscuros emergentes, as suas ideias sociais pouco populares e a pouca simpatia que a personagem despertava no "homem comum" fizeram-no cair do pedestal. Balladur tinha allure de chefe de estado, mas era pouco comunicativo e empático. O contrário de Chirac, uma velha raposa, um gaullista à antiga, afável e acessível, que aos poucos subiu nas sondagens, e em Abril de 1995 passou à segunda volta, com Jospin, deixando Balladur para trás, após o que seria, sem surpresa, eleito Presidente de França. O então chefe de governo demitiu-se, e com ele os jovens turcos que o tinham apoiado, como François Fillon e Nicolas Sarkozy. François Bayrou, que também lhe tinha dado o apoio, transitou para o novo governo, que seria chefiado por Alain Juppé, até ali Ministro dos Negócios Estrangeiros e apoiante indefectível de Chirac.
 
 
A história presidencial em França parece repetir-se 22 anos depois, no mesmo sector, com a diferença de que desta vez a segunda volta não deverá ser entre um gaullista e um socialista. As forças políticas mudaram, mas muitos dos seus intervenientes não, em especial algumas figuras que conviveram no mesmo governo: Fillon (nem de propósito, apoiado por Balladur) é um candidato em desgraça; Sarkozy antecedeu-o; Juppé caiu mas ia sendo repescado; e Bayrou, que aprendeu a apostar no cavalo certo (Sarkozy primeiro, Hollande depois), apoia Emanuel Macron e pode voltar à ribalta política, se a sua aposta se voltar a concretizar. A política francesa, com as suas reviravoltas, apoios, dissensões e "richelieunismos vários, continua a ser um apaixonante manancial de interesse na política europeia.

sexta-feira, março 31, 2017

Nos sessenta anos do Tratado de Roma


A propósito dos 60 anos do Tratado de Roma, celebrados a 25 de Março com alguma cerimónia e descrição (tirando o discurso de Donald Tusk), em pleno processo do Brexit, lembrei-me, a propósito das nuvens negras que a UE atravessa e da contestação que sofre sendo o ponto culminante precisamente o referendo que deu no Brexit, daquela célebre frase popularizada durante a ditadura militar brasileira: "Ame-o ou deixe-o". Se é certo que a actual UE não desperta exactamente grandes amores, mais certo é que os tempos em que os "soberanistas" e nacionalistas dominavam deram nos piores desastres no Velho Continente. Não será preciso amá-la para não a deixar. Basta que não se limite a ser uma burocracia internacional, apenas importada com os procedimentos de cumprimento dos défices (e de apenas alguns países), e com outras "magnas questões", como a eventual proibição de fumar na praia ou a curvatura dos pepinos.

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terça-feira, março 21, 2017

Tudo na mesma menos as promessas da cantera.

 
Sim, o empate do Porto em casa com o Setúbal deu para rir uns minutos, mas depois passou. A azia da véspera ainda se fazia sentir, tanto pela exibição com pelo resultado. Só mudou mesmo a noção de que se calhar a confiança portista esbarra na pressão, tanto na que sofrem como na que exercem (teve de vir a queixa do costume emitida por um qualquer pasquim online a reclamar não sei quantos penaltys que teriam ficado por marcar contra o Porto, como se os mergulhos contassem como falta).
 
De resto, nada muda. O Benfica mantém-se líder com mais um ponto, o FCP anseia por lá chegar, e ambos medirão forças no jogo na Luz, daqui a quase duas semanas. É verdade que a equipa joga pouco e que há jogadores em claro sub-rendimento, para não falar das lesões (será normal não conseguir juntar a equipa ideal um único jogo este ano?). Mas não sei se a falta de traquejo dos jogadores portistas, como se observou nas competições europeias, não se fará sentir. O jogo pode decidi rmuito mas também deixar tudo na mesma, se houver empate. E a sorte do campeonato ficará submetida a eventuais tropeções no futuro - e recordemos que o Benfica ainda tem de ir a alvalade.
 
A única coisa realmente positiva destes jogos é que continuam a despontar jovens promessas benfiquistas. Bruno Varela, Fábio Cardoso e sobretudo João Carvalho, que marcou um portentoso golo ao Porto, lá estiveram a confirmar. Se este empate nos valer o campeonato, é outra mais-valia vinda do Seixal.

terça-feira, março 14, 2017

O descaramento do pequeno sultão


O sr. Erdogan, que tenta a difícil combinação de sultão com Ataturk, mandou prender recentemente milhares de militares, professores, magistrados e outros cargos supostamente mancomunados com o ex-aliado e actual pior inimigo Gullen, está com ideias de restaurar a pena de morte, persegue os curdos a ponto de poupar o DAESH e procura reforçar ainda mais os seus poderes através de um referendo próximo. Munido deste historial democrático, e para garantir mais votos, encarregou os seus ministros de fazerem uma digressão de propaganda pela Europa para participarem em comícios com as numerosas comunidades turcas que vivem na Alemanha e na Holanda. Como se sabe, os enviados governamentais foram impedidos pelas autoridades locais de fazerem campanhas em países que não o seu próprio, o que levou a veementes protestos por parte da Turquia e a que o próprio presidente apelidasse os holandeses de "racistas", "nazis", "covardes", etc, ao mesmo tempo que exigia pedidos de desculpa e que pedia sanções contra a Holanda. Entretanto, manifestantes turcos protestaram nas ruas de Amsterdão e Roterdão, antes de serem escorraçados pela polícia, o que serviu para novas ameaças de Erdogan.

Um absurdo próprio da época em que vivemos, bem ilustrativo dos já tão famosos "factos alternativos": um presidente prepotente e autoritário, com historial duvidoso no que ao respeito pelas liberdades fundamentais diz respeito, a insultar e ameaçar um país com uma democracia sólida e que se limitou a fazer cumprir as suas regras de forma exemplar (sem precisar de populistas como o sr. Wilders). Para mais, sabe-se que na Turquia não são permitidos comícios políticos feitos por emissários estrangeiros, e que os partidos curdos têm passado por inúmeras dificuldades sob a bota de Erdogan e dos seus sucessivos governos. De resto, um regime que permitiu deliberadamente que o DAESH entrasse nas suas próprias fronteiras a chamar "terroristas" à Alemanha e à Holanda, ou que chama indiscriminadamente "nazis" quanto perpetrou o primeiro genocídio do séc. XX sem que o tenha até agora reconhecido é o cúmulo dos cúmulos do descaramento. Definitivamente, Erdogan julga-se um novo sultão otomano, até na forma como ameaça a Europa ou se permite fazer propaganda agressiva nas ruas  de outros países. Esperemos que não haja Lepantos, cercos a capitais e outras coisas que julgávamos próprias de séculos passados. E os sultões de outrora eram certamente mais diplomáticos do que esta cópia barata.

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domingo, março 12, 2017

Em defesa do fato de três peças


 
Com boa vontade, pode-se dizer que o Inverno está perto do fim, o que  permitiu que nos últimos tempos um certo tipo de roupa, que se julgava ultrapassado e fora de uso, fizesse o seu reaparecimento, demonstrando uma vez mais que nos tempos que correm, as modas e o vestuário mais distintos nunca passam completamente (excepto as calças de boca de sino, graças a Deus). Sim, estou a falar do fato de três peças, esse ícone do aprumo.

Ultimamente não faltam políticos, jornalistas (José Rodrigues dos Santos, entre uma piscadela de olho e uma teoria política inventada na hora, não tira o seu fato tweed com colete), funcionários públicos, escritores, homens do desporto, etc, a retirar o seu casaco/calça/colete do armário onde esteve injustamente quase desterrado. António Costa já apareceu um par de vezes assim vestido. Rui Vitória, seja a deitar olhares de preocupação para dentro do relvado seja numa "flash-interview", já não passa sem o seu fato de três peças cinzento com gravata vermelha. E poderia citar mais um par de exemplos se a minha memória visual mo permitisse.

A verdade é que o fato de três peças já não é o "uniforme" usado por políticos conformistas dos anos 70 e 80, nem a decoração pirosa usada por alguns visionários datados na segunda meta de 90, em que os coletes emparelhavam com casacos de 5 botões, sendo eles próprios abotoados quase até ao nó da gravata. Agora regressou no seu modelo mais clássico, digno dos elegantes anos trinta, em que gentlemen e menos gentlemen não o dispensavam. Ao mesmo tempo, o revivalismo também conhece uma nova adaptação criativa, e os fatos já não são apenas às riscas, de tweed, ou lisos, combinando estilos variados e até cores entre eles, mesmo que os resultados nem sempre sejam satisfatórios. Mas para além da elegância e da ideia de aprumo que transmite, o colete é uma peça óptima para usar no Inverno sem que se torne supérfluo ou incómodo num ambiente interior, como aliás se prova nesta eficaz apologia, que me recorda que no Brasil se lhe dá o nome de "terno".
 
Deixemos pois o fato de três peças regressar à vontade. Acabemos com as últimas resistências. Tiremo-lo do armário, levemo-lo para a rua, para o trabalho, para festas e comemorações. Há que dar de novo a dignidade e a visibilidade que esta elegante combinação calças-casaco-colete merece. Façamos justiça ao fato de três peças e coloquemo-lo de novo onde ele deve estar, no panteão do vestuário quotidiano masculino.
 
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quinta-feira, março 09, 2017

Silêncio


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Já se estreou em Janeiro, já estará em poucos cinemas e já o discutiram amplamente, nos jornais, na net, em debates depois das sessões. Objecto de amplo debate e com assinalável êxito de bilheteira em Portugal para um filme deste tipo, Silêncio, de Martin Scorsese, um projecto pessoalíssimo do realizador americano, é uma obra desafiante, desconfortável, inquietante, que talvez não perdesse com um tudo de nada economia narrativa a mais, mas que cumpre o seu propósito.
 
A história dos dois jesuítas portugueses que partem para um Japão hostil ao cristianismo (em que a perseguição aos kakure kirishitan  está ao rubro e em que o mais leve vestígio da religião trazida pelos "bárbaros do Sul" é severamente punido) em busca do seu mestre, Cristóvão Ferreira, que terá cometido apostasia, é, como se sabe, uma adaptação do livro do escritor católico japonês Shusaku Endo, que Scorsese leu há já uns anos, tendo-se prontificado, desde então, a adaptar a obra ao grande ecrã. Já nos anos noventa João Mário Grilo o fizera, em parte, com Os Olhos da Ásia, agora oportunamente reexibido em algumas salas.
 
Provindos de Macau, os jesuítas Sebastião Rodrigues (Andrew Garfield) e Francisco Garupe (um nome inventado mas que lembra Pedro Arrupe, que seria superior-geral dos jesuítas e que esteve precisamente no Japão ao tempo da 2ª Guerra, interpretado por Adam Driver) chegam ao Japão em 1640, ano da Restauração e pouco tempo após a rebelião de Shimabara, após o qual o Xógunato, o regime militar japonês regente até ao Séc. XIX, reprimiu qualquer manifestação de cristianismo, considerando a religião perniciosa para a sociedade e a civilização japonesas, seguidoras do xintoísmo e influenciadas pelo budismo. O cristianismo viera com os portugueses cem anos antes, fora desenvolvido pelos jesuítas e chegara aos 300 mil fiéis, sobretudo na zona de Nagasaqui, a "Roma japonesa". A repressão começou em inícios do Séc. XVII e atingiu o ponto mais alto pouco antes da altura em que a acção de Silêncio se inicia.
 
Os dois padres chegam em sigilo ao misterioso Japão, e logo entram em contacto com os "cristãos escondidos", cujas práticas religiosas são feitas no maior secretismo. A partir daí segue-se um périplo que envolve ritos litúrgicos secretos, fugas, prisões, confronto entre culturas, a pesada mão da inquisição japonesa e o encontro enfim com Cristóvão Ferreira (Liam Neeson, num papel que chegou a estar entregue a Daniel Day-Lewis) e a revelação da sua real situação.
 
A interrogação central do filme - não podemos nunca renegar a Deus e aos seus símbolos, ainda que isso implique o martírio, ou devemos fazê-lo para nos salvar e sobretudo se a vida de outros depende disso? - deu azo a inúmeras discussões. A atitude moral de quem comete a apostasia "oficialmente", pisando uma imagem sagrada e repudiando publicamente a sua fé (mesmo que a conserve secretamente) é reprovável, ou pelo contrário, perfeitamente aceitável? Como pode alguém criticar o acto de outra quando esta passa por sofrimentos indizíveis? Ou quando pretende salvar outros da tortura e da morte? E por outro lado, que respeito haverá por aqueles que nem com a perda da vida renunciaram à fé, acreditando sempre na salvação eterna? Estas interrogações, ao mesmo tempo metafísicas e terrenas, perpassam ao longo de todo o filme, atormentando as personagens e os espectadores, sendo lançadas através de actos, de conversas, de meditações ou até, como o título indica, de silêncios. E revelam como ser cristão é tão difícil e que em momentos decisivos a vontade de Deus pode ser tão ambígua e difícil de descortinar.
 
Além da questão fulcral há outras laterais, igualmente interessantes. A abnegação dos "cristãos escondidos", que mesmo sob a ameaça da justiça e na sua própria terra, persistem em manter-se fiéis à cruz. A perseguição e as pesadas sentenças da inquisição japonesa, contemporânea da cristã, na altura também muito virulenta na Europa (e noutras paragens, como Goa), que surpreende porque representa uma doutrina supostamente pacífica e "não violenta" como o budismo, mas que nem por isso é menos brutal ou opressora do que as congéneres cristãs - provavelmente será ainda pior. A dupla faceta dos japoneses, civilizados e corteses e ao mesmo tempo brutais e impiedosos, características que tão bem se puderam verificar no séc. XX, em especial até à 2ª Guerra. E um conjunto de personagens intrigantes, não só os atormentados jesuítas, mas também aquela espécie de Judas nipónico, que traía e regressava sempre a pedir perdão, até à raia do imperdoável, ou o inquisidor, que do alto do seu poder implacável, exprime-se quase sempre de forma tranquila, quase com bonomia, demonstrando um conhecimento e de certo modo alguma admiração pelo cristianismo, mas recusando-o absolutamente, e lançando questões curiosas.
 
E evidentemente, há o interesse de ver uma produção americana, de um dos mais conhecidos realizadores da actualidade, ser protagonizada por personagens portuguesas e entrever a expansão portuguesa no mundo. Não é todos os anos que um filme de exibição planetária que também aborda a história de Portugal aparece nos cinemas.
 
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Todos estes elementos atravessam um filme com mais de duas horas e meia de duração, que com cenas mais dramáticas e outras mais meditativas, acaba por cumprir o propósito de Scorsese. Que não era nada fácil, reconheçamo-lo. E que não teve um grande retorno de bilheteira, já que parece que nos Estados Unidos o filme não terá atraído grandemente as atenções (nem a curiosidade dos Óscares, nomeado que estava apenas para Melhor Fotografia, que previsivelmente não ganhou). Mas o propósito de discussão da tese central ficou amplamente ganha. Aqueles a quem a obra dizia alguma coisa puderam visioná-la e discuti-la, a começar pelo Papa, a quem o realizador reservou uma sessão especial no Vaticano. E recordou de novo uma comunidade perseguida e em parte esquecida, cujos antepassados puderam revisitar e que tanto diz aos portugueses, como irmãos longínquos e necessitados que não se esqueceram que uns "Bárbaros do Sul" foram ao seu encontro e lhes levaram uma doutrina que para muitos significou a perseguição e a morte, mas que para todos era sinónimo de Salvação.