domingo, novembro 18, 2012

O futuro do Bloco de Esquerda


Desde o tombo das Legislativas de 2011 que o Bloco de Esquerda parece vir a quebrar-se. As coisas já não estavam muito sólidas depois do apoio a Alegre nas últimas presidenciais, com os resultados que se conhecem, e da recusa em encontrar-se com o trio de fiscais internacionais, vulgo Troika, mas verdadeiramente a pressão só veio acima com o desaire eleitoral. A queda abrupta e o encolhimento do grupo parlamentar (em especial a não eleição de José Manuel Pureza, que nem sequer era inesperada) ditaram a contestação inédita que a direcção do movimento, e em especial o seu "coordenador" Louçã, sofreram posteriormente. Se os apelos à responsabilização pelos resultados e até para o afastamento já se sucediam, o caso de Rui Tavares, que bateu com a porta em litígio com Louçã, entre acusações de mentiras e falsidades, contribuiu ainda mais para o transbordamento do copo. Seguiram-se as eleições na Madeira, em que o Bloco conseguiu ser o único partido a não eleger um deputado regional (!), e mais recentemente nos Açores, em que ficou com apenas um lugar. No último Verão houve notícias, a propósito da sucessão de Louçã, de querelas e troca de acusações entre o "coordenador" cessante e Daniel Oliveira, e a facção mais radical, correspondente à FER de Gil Garcia, optou por abandonar o Bloco para constituir o MAS. Muitos problemas num espaço de tempo curto para uma formação que teve uma ascensão relativamente rápida e segura, mas que parece estar sem frescura muito por força da insistência nos "temas fracturantes" e que parece não estar a conseguir capitalizar o descontentamente com o Governo.


É sabido que o Bloco é uma aglutinação heterogénea de formações de esquerda radical que decidiram em fins dos anos noventa que a união faria a sua força. Os trotsquistas do PSR juntaram-se então aos maoístas da UDP e aos ex-MDPs e ex-comunistas (por sua vez vindos da Plataforma de Esquerda) do Política XXI, aglutinaram o grupúsculo FER, e formaram o Bloco. Esta miscelânea, com vários líderes mas representada por Louçã, o mais conhecido e de discurso mais eficaz, conseguiu não só aguentar-se como subiu ao longo dos anos nos lugares do Parlamento, e acima de tudo no mediatismo. Não há ninguém no país que não conheça o Bloco, os tiques de Louçã e a sua agenda fracturante, mesmo que no domínio da caricatura.

Apesar desta ascensão, que desmentiu quem achava que o movimento seria um PRD de esquerda, com uma carreira efémera, também havia quem previsse há algum tempo que o radicalismo afastaria algum capital de simpatia e que com o esgotamento da agenda fracturante aceite pelo grande público - porque a certa altura muito poucos estarão dispostos a aceitar mais pretensos "avanços civilizacionais" - o Bloco perderia peso e reduzir-se-ia ao plano da caricatura. Não sendo esse o caso, o facto é que não se sabe qual o melhor caminho. Miguel Portas, uma das mais populares e lúcidas figuras do Bloco, desapareceu há meses, não sem que antes apelasse à renovação dos quadros dirigentes primordiais. Fernando rosas percebeu isso mesmo e afastou-se, Louçã preferiu manter-se no cargo até agora, antes de ceder o lugar à nova liderança bicéfala (ou "paritária", como preferem dizer), não sem antes se despedir da "coordenação" e do Parlamento com a populista tirada sobre  a "caridadezinha", num exercício de demagogia que desgraçadamente sempre o acompanhou, apesar de toda a sua preparação e inteligência.

O novo modelo de liderança do Bloco é claramente inspirado pelo dos Verdes alemães, que começou como um movimento radical até à actual institucionalização quase ao centro, dando ideia que há uma vontade de evoluir para uma maior moderação de forma a poder no futuro suportar um governo com o PS. Ainda assim, o novo tipo de liderança terá as suas desvantagens, desde logo na dificuldade em escolher um rosto que represente o partido (nos debates entre lideranças, por exemplo). João Semedo tem uma imagem de competência e moderação que contrasta claramente com a de Louçã, conseguindo ao mesmo tempo não ser uma figura apagada ou cinzenta, mas Catarina Martins, além de não grandemente conhecida, representa a influência da facção UDP, o que não abona a favor da moderação desejada por muitos. Luís Fazenda, o outro fundador que resta no Parlamento (e precisamente o líder de facto do grupo da UDP), não tem claramente popularidade nem boa aceitação junto de um público menos dado a radicalismos, como se provou no falhanço da sua candidatura à câmara de Lisboa. Com um deputado equilibrado na liderança, mas dividindo-a com uma co-coordenadora oriunda de um sector mais radical, a saída de personalidades prestigiadas e influentes na opinião pública, uma renovação de quadros geradora de muitas dúvidas e a necessidade de disputa do terreno com o PCP e alguns sectores do PS, resta saber se o Bloco caminhará para uma maior moderação de forma a apoiar um futuro governo do PS ou se permanecerá nas suas trincheiras radicais e contestatárias inconsequentes. Pode obter dividendos mas também pode perder: na primeira hipótese, a de uma parte ser engolida pelo PS e outra pelo PCP; na segunda, a de estagnar e definhar, caindo na irrelevância. São caminhos sempre arriscados, mesmo num cenário que lhe é favorável, que a dupla Semedo/Martins terá de trilhar na obrigação de não esconder o que realmente pretende.


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